Com o aparecimento e expansão da Internet, sobretudo depois de esta assumir a forma da World Wide Web, forma-se o “caldo de cultura” que possibilita a multiplicação de experiências de ensino/aprendizagem on-line. Neste contexto, os REAs aparecem como a disponibilização de materiais que num passado recente só seriam acessíveis mediante inscrição, pagamento, password…
Potencialidades
- Utilizar os REAs para tornar possível a estudantes em regiões carentes de estruturas de ensino formal o acesso a materiais diversos: textos das aulas, bibliografia diversa, vídeos, testes e exames, muitos deles produzidos por professores de universidades de referência.
- Os REAs materializam pela primeira vez na história o carácter público e universal do conhecimento, aquilo que as bibliotecas públicas fizeram no passado de uma forma limitada.
- Estas potencialidades estão ainda condicionadas, por um lado pelo acesso à rede, por outro pela disponibilidade de computadores.
Oportunidades
- Podermos começar na nossa actividade a transição de cursos para o b-learning “queimando etapas”, isto é, sem necessidade de desenvolver a quantidade de materiais de ensino que seria necessário desenvolver se partíssemos do zero. Poupança quer em “mão-de-obra” quer em recursos financeiros (veja-se o investimento envolvido nos casos que estudámos na Actividade 4).
Riscos
- A monitorização do trabalho dos alunos é tanto menor quanto mais dispersa for a aprendizagem. Isto levanta problemas a) ao nível de hábitos errados de trabalho – montagem acrítica de textos, figuras, etc obtidas na Web, sem elaboração própria, e b) ao nível da avaliação – apresentação de trabalho alheio como trabalho próprio, sem atribuição de crédito ao autor original – plágio. O que levou diversas instituições a desenvolver ferramentas para detectar fraudes no trabalho académico (por exemplo VeriGuide, desenvolvido na Universidade Chinesa de HongKong).
- A introdução de novas metodologias de ensino deve ser feita de forma cuidadosa e gradual – a utilização dos REAs não constitui uma excepção a esta regra de bom senso. Uma experiência falhada é uma arma nas mãos da brigada “Eu sempre disse que não ia resultar!”
- Segurança informática – A plataforma a usar para uma utilização intensiva destes recursos tem que ser gerida de forma profissional e com uma atenção extrema aos problemas de segurança.
Desafios
- Convencer as nossa instituições que já estamos no Século XXI…
- Convencer o número suficiente de docentes do ensino superior – suficiente em termos da criação de uma “massa crítica” – de que o e-learning veio para ficar, e que terão de passar a usar os novos meios de difusão de informação se não quiserem “perder o comboio”.
- Mas para isso, será necessário convencê-los do interesse em apanhar esse comboio, isto é, de que a componente de ensino das suas carreiras é tão importante como as componentes de investigação, de gestão e de ligação à sociedade…
- … o que pressupõe a transformação do actual Ministério da CIÊNCIA, Tecnologia e ensino superior em Ministério da CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR.
- Curtis Bonk é o autor de “The World is Open”, que tem como subtítulo How Web Technology is Revolutionizing Education. No site dedicado à promoção do livro apresenta parte de uma entrevista dada ao Christian Science Monitor, onde sob o título genérico Why “Share” and how can OER and OCW benefit people in these difficult economic times?, enumera
A. Here are 10 reasons that instructors share course contents online:
B. Here are 10 reasons institutions of higher learning like MIT, Notre Dame, Tufts, Utah State, and Johns Hopkins place courses and programs online:
C. 10 reasons why someone might use OER and other online contents:
D. 10 OER Types of Resources and Organizations:
cuja leitura se recomenda, em particular porque tem argumentos “utilizáveis” no que respeita aos dois primeiros desafios.
- Um dos receios que me parecem implícitos em certas críticas à disponibilização de conteúdos na Web e ao e-learning é o receio do esvaziamento do contacto directo. A meu ver, este receio é infundado: como se pode ver num dos vídeos introdutórios, quando o MIT tomou a decisão de colocar gratuitamente na Web todos os seus cursos (nesta data estão disponibilizados mais de 1800 cursos), considerou que o que dava importância ao MIT não eram os conteúdos, mas a interacção entre professores e estudantes, o ambiente académico onde despertam novas ideias. Ou seja, a disponibilização dos conteúdos pode fazer salientar o verdadeiro valor das instituições.
- A questão da “abertura” (openness) dos recursos prende-se ainda com a Problemática do copyright / direitos de autor.
Este problema é analisado com algum detalhe no Relatório de Illka Tuomi indicado na bibliografia para a Actividade 5, sobretudo em relação à génese da legislação sobre o copyright.
Na blogosfera portuguesa, estas questões têm vindo a ser discutidas com algum ênfase: duas posições bem demarcadas são as de Desidério Murcho, no blogue The Rerum Natura – contra a “abertura” e a gratuitidade de um modo geral – e de Ludwig Krippahl, no blogue Que Treta!, a favor da mesma. Uma polémica a seguir pelos interessados no assunto.
- Em tempo: Um argumento a favor da informatização dos cursos que tende a ganhar peso nos tempos que correm é que no caso de uma pandemia, com a necessidade de evitar aglomerações de pessoas, o ensino/aprendizagem poderia continuar. Isto começa a fazer parte dos planos de contingência para assegurar a continuidade da actividade (“business continuity”) de muitas instituições.
A fechar
A minha resposta à questão colocada no título é assim afirmativa. O uso dos REAs permitirá arrancar com experiências “de demonstração” que as nossas instituições não teriam recursos para financiar “de raiz”.
Etiquetas: OERs REAs Desafios
Maio 4, 2009 ás 11:25 pm |
O João acerta na “mouche”
quando apresenta no topo dos desafios:
“Convencer as nossa instituições que já estamos no Século XXI… ” e convencê-los a não “perder o comboio”,
sobretudo no nosso contexto específico, onde uma fracção apreciável dos “comboios” andam com um atraso de 20 anos. Na minha opinião, de entre os vários desafios, este é o mais difícil de resolver.
Isabel Neto
Maio 4, 2009 ás 11:38 pm |
Olá Isabel
E nem estamos a falar do TGV
Não é espantoso como um MIT “convence” todos os seus professores a disponibilizar na Net todos os materiais de ensino? E na esteira deles quantas universidades já fizeram o mesmo? E serão pessoas menos ocupadas do que nós? Certamente que não!
Acontece é que existe uma cultura que considera que ensinar é uma actividade tão importante como investigar.
Maio 5, 2009 ás 11:04 pm |
Caro João,
Inteiramente de acordo com a Isabel!
De facto, não se afigura tarefa fácil esta de convencer as nossas instituições de que por aqui passará (pelo menos) o futuro!
Na verdade a experiência e a prática do MIT é espantosa! Nem vale a pena perder muito tempo a pensar naquilo que as nossas instituições e os seus docentes pensariam perante uma tal possibilidade!…
A maioria teria, certamente, acessos de insanidade (pelo menos temporária) e ou de raiva!
Mas, brincadeira à parte, para empreender tal iniciativa é preciso, efectivamente, apostar numa forte cultura organizacional/institucional.
Ter plena noção e consciência de quais são os seus valores estratégicos, o que significa saber em que é que somos diferentes dos nossos rivais, e porque é que, mesmo colocando os conteúdos online, gratuitamente, continuaremos a preencher todos os numerus clausus sem que consigamos satisfazer todos os que nos procuram para ter o privilégio de estarem matriculados na nossa “Escola”.
É de facto, como se estivéssemos noutra dimensão.
Maio 13, 2009 ás 12:38 pm |
Olá, João,
Excelente e bem informada “síntese crítica” sobre os REA, com o humor a que o João nos tem habituado.
Gostei especialmente dos “desafios”: está lá tudo!